O Santo Rosário tem sido considerado pelos Romanos Pontífices como a devoção mariana por eles mais recomendada. O Papa Paulo VI, em sua alocução de 7 de outubro de 1964, afirmou que é tradição constante dos últimos Pontífices prestar homenagem à Santíssima Virgem mediante a explicação e recomendação do Santo Rosário.
Sua origem histórica mostra que não foi entregue como fórmula pronta e imutável pela Santíssima Virgem a São Domingos de Gusmão, mas que teve uma evolução progressiva. São Domingos, nascido por volta de 1170 e falecido em 1221, difundiu a primeira parte da Saudação Angélica, enquanto a invocação final «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores» foi acrescentada mais tarde, de modo geral a partir do século XVII. O nome de Jesus na primeira parte generalizou-se em meados do século XIII.
No século XII, a oração da Ave-Maria ainda não estava amplamente difundida; o que se rezava com frequência era o Pai-Nosso. Apenas se encontram testemunhos isolados de religiosos que recitavam a Saudação Angélica em honra da Santíssima Virgem, tal como refere São Pedro Damião.
São Domingos de Gusmão
São Domingos introduziu um modo próprio de orar, descrito na obra Os Modos de Orar, onde se relata que ele rezava alternadamente de pé e de joelhos, ora em silêncio, ora em voz alta, chegando por vezes a ser arrebatado em êxtase. Seus discípulos o imitavam, recitando centenas de Ave-Marias acompanhadas de genuflexões. Frei Teutônico testemunha que em todos os louvores à Santíssima Virgem, São Domingos recitava a Ave-Maria de joelhos. O Beato Jordão da Saxônia, sucessor de São Domingos na direção da Ordem, determinou que ao final de cada salmo se rezasse uma Ave-Maria acompanhada de genuflexão.
A prática espalhou-se, e já se registravam milagres atribuídos à recitação da Ave-Maria — como o caso de uma religiosa chamada Perrete, na cidade de Ruão, que, recitando cem Ave-Marias, foi restabelecida à saúde.
São Domingos instituiu também a «Milícia de Jesus Cristo», uma associação de fiéis leigos vinculada à Ordem, estabelecendo que, em lugar das Horas Canônicas, recitassem um determinado número de Pai-Nossos e Ave-Marias. O Papa Gregório IX aprovou essa prática por meio de Bula, fixando a proporção de sete Pai-Nossos e sete Ave-Marias por cada hora canônica. Deste modo, formou-se um dos primeiros elementos que viriam a estruturar o Santo Rosário tal como o conhecemos.
A devoção multiplicou-se nesta primeira fase da história rosariana. Contam-se inúmeros exemplos: Santa Margarida da Hungria, a Irmã Ana de Wineck, o Padre Tiago Casini da Seta e as religiosas do Mosteiro de Kirsberg, todos os quais recitavam habitualmente centenas e até milhares de Ave-Marias.
O estudioso Padre Getino resume este período assinalando que a obra de São Domingos relativamente à Ave-Maria consistiu em introduzir a sua recitação em três âmbitos: no Ofício da Santíssima Virgem, para os clérigos; em substituição do Ofício Divino, para os leigos e confrades da Milícia; e fora do âmbito do Ofício, em recitações agrupadas de cinquenta — as chamadas «quinquagenas».
O Contador de Ave-Marias
O Rosário como objeto material — ou seja, o cordão com contas destinado a contar as orações — não foi instituído diretamente por São Domingos. Alguns de seus discípulos começaram a utilizar contadores de modo público, dando origem, desde os primeiros séculos, ao que se poderia chamar de arqueologia do Rosário.
No século XIV, o Beato Marcolino de Forlì, religioso dominicano, recitava diariamente cem Pai-Nossos e cem Ave-Marias diante das imagens de Cristo e da Santíssima Virgem, servindo-se de contas visíveis, seguindo o costume que já era comum entre os fiéis convertidos. Esses contadores serviram inicialmente para contar os Pai-Nossos; depois foram adaptados também às Ave-Marias, até que a fórmula do Rosário se consolidou definitivamente.
O testemunho mais antigo que se conhece de um instrumento próprio para contar as Ave-Marias refere-se a Frei Romeu de Llívia, dominicano catalão dos primeiros tempos, fundador do Convento de Lyon em 1218 e Provincial da Provença. Ao falecer, trazia na mão uma corda com nós, que lhe servia para contar as mil Ave-Marias que recitava todos os dias. Este relato, recolhido por Estêvão de Bourbon e Bernardo de Guidón, constitui o testemunho material mais antigo conhecido do Santo Rosário.
Em breve, os contadores de Pai-Nossos foram adaptados também ao Rosário. Já no século XIII, os fiéis leigos e os convertidos vinculados à Ordem Dominicana usavam fios com contas, tal como se confirma nas Atas do Capítulo Provincial de Orvieto, de 1261. Santa Catarina de Sena ofereceu à sua amiga Alesia um Rosário com cem contas.
Com o tempo, acrescentou-se também o recurso a materiais preciosos nesses objetos: em 1333, menciona-se um Rosário cujas contas eram feitas de âmbar, cristal e coral. O Capítulo Provincial de Orvieto chegou a proibir o uso de Rosários de materiais nobres pelos leigos, embora não tenha especificado o número de contas. Nas estátuas e nos sepulcros dos séculos XIV e XV, é comum ver representados Rosários nas mãos dos defuntos, com as dezenas separadas por contas de maior tamanho.
Quando o Beato Venturino de Bérgamo realizou a sua peregrinação, acompanhado por cerca de trinta mil fiéis, os peregrinos levavam na mão um bastão e na outra um cordão de contas, destinado a contar tanto os Pai-Nossos como as Ave-Marias. Também nos sepulcros da Espanha dos séculos XIV e XV e em obras de arte da mesma época se encontram representações de Rosários. Segundo o Padre Getino, a imagem mais antiga conhecida que mostra o Santo Rosário é uma pintura em tábuas, originária de Colônia e datada de 1474, destinada à Congregação do Rosário, na qual a Santíssima Virgem aparece com o Rosário ao pescoço e entre as mãos, vendo-se claramente as dezenas separadas por contas maiores.
A Meditação no Santo Rosário
À medida que se foi desenvolvendo a recitação da Ave-Maria, foi-se integrando também a meditação. Desde os tempos de São Domingos, uniu-se à oração vocal a contemplação dos mistérios da vida de Cristo e da Santíssima Virgem. Ele ensinava aos seus religiosos que recitassem as Ave-Marias de joelhos, diante de um Crucifixo, com atitude de recolhimento e reverência, transmitindo-lhes não apenas a fórmula de oração, mas também o espírito de meditação que a deve acompanhar.
As religiosas da Comunidade das Beguinas, em Gante, estabeleceram que, antes de cada oração, se fizesse a leitura e meditação de um mistério da vida de Cristo ou da Santíssima Virgem, dando origem à forma de oração conhecida como o «Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria». Outros santos e teólogos — entre eles Hugo de São Caro e Santo Tomás de Aquino — organizaram as recitações em torno dos mistérios da Encarnação, da Paixão e da Glória. Santa Isabel da Hungria recitava mil Ave-Marias em honra ao Menino Jesus, unindo sempre a oração vocal à contemplação dos mistérios.
A arte também testemunha esta prática: códices e pinturas antigas representam São Domingos orando diante da Cruz e a Santíssima Virgem nos principais momentos da vida de Cristo. O Beato Fra Angélico pintou cenas deste tipo, antecipando de modo admirável a estrutura dos mistérios do Rosário. Já os manuscritos do século XIV mencionam expressamente a Anunciação, o Nascimento do Senhor, a Adoração dos Reis Magos, a Ressurreição, a Ascensão, a Assunção da Santíssima Virgem e a Sua Coroação no Céu.
Em conclusão, a meditação consolidou-se como o complemento natural da Saudação Angélica, unindo a devoção à Santíssima Virgem à contemplação dos mistérios de Cristo, de modo a formar a própria essência do Santo Rosário.
«O Santo Rosário pertence ao patrimônio mais puro e reconhecido da contemplação cristã. Sendo nascido no Ocidente, é uma oração de natureza meditativa e guarda certa semelhança com a “oração do coração”, também chamada “oração de Jesus”, que floresceu no solo do Oriente cristão. Compreendido em todo o seu alcance, o Rosário conduz ao próprio cerne da vida cristã e oferece, para a contemplação pessoal, a formação do Povo de Deus e a nova evangelização, um meio ordinário e fecundo, tanto do ponto de vista espiritual como pedagógico.»
— Excerto da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, do Santo Padre São João Paulo II
O Significado do Santo Rosário
«Recitar o Rosário é, em realidade, contemplar com Maria o rosto de Cristo.» — São João Paulo II
É uma oração de caráter mariano, inteiramente centrada em Cristo. Encerra em si a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é como que um compêndio. Nela ressoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat, pela obra da Encarnação redentora operada em seu seio virginal.
Por meio do Santo Rosário, o fiel obtém graças em abundância, como se as recebesse das próprias mãos da Mãe do Redentor. Com ele, o povo cristão aprende de Maria a contemplar a beleza do rosto de Cristo e a saborear a profundidade do Seu amor. (Da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae)
As Partes que Compõem o Santo Rosário
São conjuntos de mistérios: Gozosos, Dolorosos, Gloriosos e Luminosos.
«A recitação destes mistérios nos coloca em comunhão viva com Jesus — poder-se-ia dizer — através do Coração da Sua Mãe. Ao mesmo tempo, o nosso coração pode incluir nestas dezenas do Rosário todos os acontecimentos que entrelaçam a vida de cada pessoa, da família, da pátria, da Igreja e de toda a humanidade. Deste modo, a oração simples do Rosário sintoniza-se com o ritmo da vida humana.» (Da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae)
A Repetição das Ave-Marias
A recitação repetida da Ave-Maria constitui o tecido sobre o qual se desenrola a contemplação dos mistérios: Jesus, a Quem cada Ave-Maria recorda, é o mesmo que a sequência dos mistérios nos propõe continuamente como Filho de Deus e Filho da Virgem.
Este é o elemento mais extenso do Rosário e faz dele a oração mariana por excelência. E é precisamente à luz da Ave-Maria, bem compreendida, que se reconhece claramente: o seu caráter mariano não se opõe ao cristológico; antes o evidencia e o exalta.
A saudação «Ave, Maria» converte-se também em louvor incessante a Cristo — termo último da saudação do Anjo e da voz da Mãe de João Batista: «Bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 1, 42). Aproxima-nos da complacência de Deus: é júbilo, assombro, reconhecimento do maior milagre da história. Cumpre-se então a profecia de Maria: «Desde agora, todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (Lc 1, 48).
«A repetição da saudação angélica é assumida como expressão de um amor que não se cansa de dirigir-se à pessoa amada com palavras que, embora semelhantes na forma, são sempre novas no sentimento que as inspira.» (Da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae)
O Santo Rosário: Oração da Paz e da Família
«Promover o Rosário nas famílias cristãs é auxílio eficaz para atenuar os efeitos desoladores da atual crise.» — São João Paulo II
A família que reza unida, permanece unida. Por tradição imemorial, o Santo Rosário é oração particularmente apta para reunir a família. Contemplando Jesus, cada um dos seus membros recupera também a capacidade de olhar-se nos olhos, de comunicar-se, de se compreender, de se perdoar mutuamente e de recomeçar, selando um pacto de amor renovado pelo Espírito de Deus.
Muitas dificuldades da família contemporânea — especialmente nas sociedades mais desenvolvidas — nascem da dificuldade de comunicar-se. Voltar a rezar o Rosário em família significa introduzir na vida diária outras presenças vivas: a do Redentor e a de Sua Santíssima Mãe.
É bom e fecundo confiar também a esta oração o crescimento dos filhos. O Rosário é como o itinerário da vida de Cristo: desde a Sua concepção, passando pela vida pública, pela Paixão, até à Ressurreição e à Glória. Rezar o Rosário pelos filhos — e ainda melhor, com os filhos, educando-os desde pequenos para este momento de oração partilhada — não é, decerto, a solução para todos os males, mas é um auxílio espiritual que jamais se deve subestimar. (Da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae).
Fonte: Livro,“O Rosário nos documentos pontifícios”.