As aparições da Santíssima Virgem em Lourdes, no ano de 1858, são interpretadas como sinal da mediação maternal de Maria, que convida à penitência e à oração, recordando que a salvação se alcança mediante a conversão do coração.
O seu reconhecimento insere-se de modo firme dentro da tradição viva da Igreja. O Papa Pio IX, apenas quatro anos depois de ter proclamado o dogma da Imaculada Conceição por meio da bula Ineffabilis Deus (1854), reconheceu oficialmente a autenticidade das aparições mediante o decreto episcopal de 1862, interpretando-as como uma confirmação providencial do Magistério eclesiástico.
O Papa Leão XIII, na sua Carta Apostólica Parta humano generi (1879), incentivou a construção da basílica e concedeu indulgências aos peregrinos, deixando claro que Lourdes era considerado um lugar privilegiado de graça.
O Papa São Pio X, no decreto de 1907 pelo qual estendeu a festa de Nossa Senhora de Lourdes a toda a Igreja, afirmou que o santuário era «sede do poder e da misericórdia de Maria».
O Papa Pio XI, ao canonizar Santa Bernadete em 1933, vinculou explicitamente a santidade da vidente com a autenticidade da mensagem por ela recebida.
O Papa Pio XII, na Encíclica Le pèlerinage de Lourdes (1957), definiu Lourdes como «o santuário da esperança» e sinal de paz que procede de Deus, sublinhando que nele se manifesta a misericórdia divina por meio da oração, da penitência e da reconciliação.
O Papa João XXIII, na sua mensagem radiofônica por ocasião do centenário das aparições (1958), recordou que Lourdes constitui lugar onde a fé se renova e a Igreja recebe renovado impulso de conversão.
O Papa São João Paulo II, no decorrer das suas peregrinações ao local, chamou-o «o santuário da fragilidade humana que encontra a força de Deus», destacando a sua dimensão eclesial e universal.
Lourdes é o santuário do tríplice apelo — «Penitência, penitência, penitência!» — eco fiel do Evangelho e da missão salvífica confiada à Igreja, pela qual a fraqueza humana é transformada pela graça de Deus.
Em conclusão, o conjunto de documentos pontifícios — desde a bula Ineffabilis Deus do Papa Pio IX, passando pela Carta Apostólica Parta humano generi do Papa Leão XIII, o decreto do Papa São Pio X, a canonização de Santa Bernadete pelo Papa Pio XI, a Encíclica do Papa Pio XII e a mensagem do centenário do Papa João XXIII — confirma que Lourdes é um autêntico acontecimento de graça: convoca à penitência, dispensa a graça de Deus e fortalece a fé mediante a mediação maternal da Santíssima Virgem Maria.
Primeira aparição
Na quinta-feira, 11 de fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous, uma jovem de 14 anos, asmática e de família muito pobre, saiu acompanhada da irmã, Toinette, e da amiga Jeanne Abadie para recolher lenha e ossos nos arredores de Lourdes. O caminho passou pela Ponte Velha, pelo moinho de Savy e, por fim, chegou à gruta de Massabielle, um lugar rochoso às margens do rio Gave.
Ao tentar atravessar a correnteza, Bernadette viu-se sozinha diante da gruta. Ouviu então um sopro de vento em meio à calma; ao olhar para o nicho da rocha, notou uma luz suave que iluminava o local. Em meio a essa claridade, apareceu uma “maravilhosa menina vestida de branco”, que sorria e abriu os braços num gesto de acolhimento. Bernadette tentou fazer o sinal da cruz, mas não conseguia mover o braço — até que a aparição fez o mesmo gesto, segurando um rosário branco com uma cruz reluzente. Nesse instante, Bernadette sentiu-se fortalecida e ambas começaram a rezar o Rosário. A Senhora passava as contas entre os dedos, sem mover os lábios. Ao término da oração, desapareceu, deixando em Bernadette uma profunda paz e alegria.
Suas companheiras não viram nada e zombaram dela. Bernadette relatou o que acontecera primeiro à irmã e depois à mãe, Louise, que reagiu com descrença e a repreendeu, supondo que a filha havia apenas visto uma pedra branca. O pai, por sua vez, sugeriu que talvez fosse uma alma do Purgatório. Naquela noite, durante a oração em família, Bernadette emocionou-se ao recordar o momento, e sua voz embargou ao pronunciar: “Ó Maria, concebida sem pecado”.
Na sexta-feira, 12 de fevereiro, Bernadette confessou que “algo a impelia a voltar a Massabielle”, embora a mãe tentasse mantê-la ocupada com afazeres. No sábado, 13 de fevereiro, a notícia já se espalhara entre as alunas do colégio. Naquele mesmo dia, Bernadette relatou a aparição em confissão ao padre Pomian, que ficou impressionado com a clareza e a firmeza de suas palavras; já o pároco, padre Peyramale, aconselhou apenas “esperar”.
Segunda aparição
No domingo, 14 de fevereiro de 1858, dia de carnaval, um grupo de meninas pobres de Lourdes decidiu acompanhar Bernadette Soubirous até a gruta de Massabielle, apesar da oposição inicial de sua mãe Louise e das dúvidas de seu pai François. Finalmente, com permissão limitada e levando água benta, partiram em direção à gruta.
No caminho, passaram pela encosta de Baous, pela Pont-Vieux e pela floresta de Chioulet. Ao chegar, Bernadette se adiantou e ajoelhou-se com o rosário na entrada da gruta. Durante a oração, anunciou a presença de uma claridade: a Senhora com o rosário pendurado no braço direito, que a olhava e sorria. Uma companheira a aspergiu com água benta, e a visão respondeu com mais sorrisos e inclinações de cabeça, confirmando sua bondade.
De repente, uma grande pedra caiu do alto —lançada por Jeanne Abadie como brincadeira— provocando pânico entre as meninas. Enquanto muitas fugiam, Bernadette permaneceu imóvel, absorta na visão, com os olhos abertos e fixos na fenda, pálida mas sorridente. Foi necessário que o moleiro Antoine Nicolau e sua família a ajudassem a sair, embora tenham notado que parecia “pesada como um saco de farinha” devido ao seu estado de êxtase. Nicolau ficou profundamente comovido ao vê-la chorar e sorrir ao mesmo tempo, descrevendo-a como “mais bela do que tudo o que já vi”.
Finalmente, Bernadette foi levada ao moinho de Savy, onde recuperou a consciência. Ali declarou com simplicidade: “É uma moça muito bonita, leva um rosário pendurado no braço”. Sua mãe Louise chegou irritada, com o bastão na mão, mas ao ouvir os testemunhos dos que haviam presenciado a cena, comoveu-se e acabou chorando.
Na segunda-feira, 15 de fevereiro, na escola, Bernadette foi repreendida pela madre superiora e pela irmã Anastasia, que qualificaram o ocorrido como “ilusões” ou “carnavaladas”. Foi alvo de zombarias de suas colegas, que a ridicularizavam dizendo que via “uma mendiga na gruta dos porcos”.
Na terça-feira, 16 de fevereiro, apesar das humilhações e da pressão de mestres e colegas, Bernadette manteve serenidade. Embora tentasse convencer-se de que tudo havia terminado, continuava sentindo em seu interior a atração de Massabielle.
Terceira aparição
Na quinta-feira, 18 de fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous dirigiu-se pela primeira vez à gruta de Massabielle ainda de madrugada, acompanhada por Jeanne-Marie Milhet e Antoinette Peyret. O ambiente respirava grande mistério e expectativa: as mulheres desejavam confirmar o que Bernadette havia visto nos dias anteriores e obter respostas claras.
Ao iniciar a oração do Rosário, Bernadette anunciou: “Ela está aqui.” A Virgem apareceu-lhe sorridente na fenda da rocha, passando as contas do rosário entre os dedos sem pronunciar palavra. Enquanto as acompanhantes não viam nada, Bernadette conservava um semblante sereno e transbordante de felicidade.
Seguindo o combinado com a senhora Milhet, Bernadette aproximou-se trazendo papel e pena, pedindo à aparição que escrevesse o seu nome. A “Senhora” respondeu com um sorriso luminoso e uma risada suave e benevolente — foi a primeira vez que Bernadette ouviu a sua voz: “Não é necessário.” Em seguida, acrescentou com solenidade: “Quer fazer-me a gentileza de vir aqui durante quinze dias?” Bernadette aceitou com alegria, e a Virgem lhe fez esta promessa: “Não prometo torná-la feliz neste mundo, mas sim no outro.”
A visão durou cerca de meia hora. Ao regressar, Bernadette relatou fielmente tudo o que ocorrera, transmitindo as palavras que ouvira. A mãe, Louise, a princípio receosa, acabou concordando que a filha fosse à gruta por quinze dias consecutivos, sob a proteção e companhia da senhora Milhet.
Naquele mesmo dia, Bernadette passou a hospedar-se na casa da senhora Milhet, junto à praça de Marcadal, embora se sentisse estranha num ambiente de conforto tão diverso da sua humilde morada. A notícia da aparição espalhou-se rapidamente por Lourdes, sobretudo depois de a tia Bernarde Castérot — madrinha de Bernadette — haver anunciado que também iria a Massabielle.
Quarta aparição
Na sexta-feira, 19 de fevereiro de 1858, bem cedo, Bernadette Soubirous voltou à gruta de Massabielle, acompanhada pela senhora Milhet, por sua tia Bernarde e por outras mulheres da localidade. Pouco a pouco, mais pessoas foram se unindo ao grupo, embora naquele dia o conjunto fosse pequeno — menos de dez pessoas ao todo.
Bernadette desceu com agilidade até a gruta e ajoelhou-se junto a uma pedra, dando início à oração do Rosário. Acenderam uma vela que iluminava suavemente a abóbada e o fundo do antro. Mal havia começado a rezar, seu semblante se transformou: tornou-se muito pálida, com a boca entreaberta e o olhar fixo no alto. Sorriu e saudou com as mãos e com a cabeça, em gestos que irradiavam paz e doçura.
Os presentes, profundamente comovidos, ajoelharam-se também. Contudo, a intensidade daquele momento inquietou sua madrinha, a tia Bernarde, que temeu que a menina viesse a falecer naquele estado. Tomou-a nos braços e exclamou angustiada: “Ai de mim e da menina!”. Nesse instante, o êxtase se interrompeu: Bernadette recuperou as cores e voltou à calma, fitando a madrinha com serenidade, como se lhe repreendesse o excesso de ansiedade.
A aparição durou cerca de quinze minutos. Tal como nas ocasiões anteriores, a Virgem Maria (Aqueró) mostrou-se sorridente e não pronunciou palavra. Ao regressarem, as mulheres voltaram cheias de esperança e despediram-se com a promessa de retornar no dia seguinte.
Na cidade, o rumor dos acontecimentos espalhou-se com rapidez. Testemunhas como Germaine Raval e Madeleine Pontic relataram o que viram às suas conhecidas. A sapateira Josèphe Barinque, profundamente impressionada, declarou que Bernadette via “uma jovem tão bela que bem poderia ser a própria Virgem”. Chegou inclusive a entregar-lhe uma medalha da Virgem, para que a usasse ao pescoço como sinal de proteção.
Quinta aparição
No sábado, 20 de fevereiro de 1858, antes do amanhecer, Bernadette Soubirous dirigiu-se novamente à gruta de Massabielle, acompanhada pela senhora Milhet e por um grupo que crescia a cada instante. Entre os presentes estavam Eléonore Pérard, Louise Lannes e diversas religiosas da congregação. Pouco a pouco, cerca de trinta pessoas se reuniram no local.
Bernadette, coberta com uma capa preta, ajoelhou-se e deu início à oração do Rosário. Permaneceu assim por cerca de quinze minutos, até que seu semblante se iluminou com um sorriso sereno: a “Senhorita Branca” (Aqueró) havia aparecido mais uma vez na fenda da rocha, saudando-a com doçura. Seus olhos mantinham-se fixos e cada um de seus gestos irradiava paz. Os presentes, profundamente comovidos, uniram-se em oração, ainda que alguns — como Rosine Cazenave — se aproximassem com curiosidade para observar de perto o que se passava.
A visão durou pouco mais de quinze minutos. Ao término, Bernadette levantou-se com calma e iniciou o caminho de volta, sem oferecer maiores explicações: dissera apenas que vira a Virgem sorridente, que a saudava em silêncio.
No trajeto de regresso, a jovem foi cercada por perguntas, mas respondeu com simplicidade: “Vi aquela Senhorita Branca que sorri e me saúda.” Sua serenidade contrastava com a curiosidade e o entusiasmo de todos ao redor.
Naquele mesmo dia, a notícia percorreu novamente Lourdes. A sapateira Josèphe Barinque, impressionada, comentou: “Se me dissessem que é a própria Virgem, não me causaria nenhuma surpresa.” Contudo, tensões surgiram no seio da família de Bernadette: a tia Bernarde, sua madrinha, mostrou-se incomodada com a influência da senhora Milhet e decidiu que a afilhada voltaria a morar com os parentes, afastando-a da casa da senhora Milhet.
Sexta aparição
No domingo, 21 de fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous voltou à gruta de Massabielle, desta vez acompanhada por sua tia Basile. Ainda que houvessem combinado partir cedo para evitar curiosos, jamais até ali se havia reunido tamanha multidão: cerca de cem pessoas assistiram em silêncio ao êxtase de Bernadette. A jovem permaneceu em oração, serena e absorta, enquanto os presentes se retiravam profundamente comovidos e cheios de alegria.
Naquele mesmo dia, o entusiasmo espalhou-se rapidamente por toda Lourdes. A sapateira Josèphe Barinque declarou com firmeza: “É verdade, a menina vê a Virgem!”. Já não se interpretava a visão como alma do Purgatório nem como simples ilusão, mas como autêntica aparição da Virgem Maria.
A notícia chegou à casa Cénac, onde residiam o vigário Pène, o administrador Estrade e o comissário Jacomet. O padre Pène pediu para ouvir Bernadette e ficou impressionado com a simplicidade e a clareza de suas respostas. Contudo, o dia tomou outro rumo quando o comissário Jacomet ordenou detê-la após as Vésperas. Conduziu-a então ao seu gabinete, na própria casa Cénac, e ali a submeteu a um interrogatório detalhado que durou mais de uma hora.
Bernadette respondeu com calma e firmeza: descreveu a “Senhorita Branca” (Aqueró) como uma jovem vestida de branco, com cinto azul, véu, rosas amarelas sobre os pés e um rosário nas mãos. Rejeitou as insinuações do comissário de que tudo não passava de engano ou devaneio, afirmando com convicção: “Sim, eu a vi. Não posso dizer outra coisa.”
O interrogatório tornou-se tenso. Jacomet tentou de todas as formas que a menina confessasse não ter visto nada ou prometesse deixar de ir à gruta. Bernadette, porém, manteve-se firme em cumprir o combinado: iria durante quinze dias, tal como a Virgem lhe havia pedido. Do lado de fora, a multidão se aglomerava exigindo sua liberação. Por fim, o pai, François Soubirous, foi chamado e, sob pressão do comissário, comprometeu-se a impedir que a filha voltasse à gruta.
Sétima aparição
Na terça-feira, 23 de fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous voltou à gruta de Massabielle, acompanhada por sua tia Bernarde e seguida por numeroso grupo de fiéis. A expectativa era imensa: cerca de cem pessoas reuniram-se no local, entre elas figuras distintas de Lourdes — o advogado Dufo, o médico Dozous, o intendente militar De la Fitte e o capitão Duplessis. Até mesmo o inspetor de impostos Jean Baptiste Estrade, a princípio cético, decidiu estar presente.
Bernadette ajoelhou-se e iniciou a oração do Rosário. Seu semblante iluminou-se de alegria e serenidade: a “Senhorita Branca” (Aqueró) apareceu mais uma vez, sorrindo e fazendo gestos de acolhimento. Durante o êxtase, Bernadette movia os lábios como se dialogasse com a Virgem, revelando surpresa, assentimentos e negativas, risos e instantes de comoção. Embora ninguém ouvisse as palavras, percebia-se claramente que recebia uma mensagem íntima.
Os presentes ficaram profundamente impressionados. Estrade, que ali chegara incrédulo, declarou: “Cheguei sem crer e saí crente.” O médico Dozous, mais cauteloso, entendeu que deveria prosseguir suas observações, mas reconheceu a força do fenômeno. Naquele momento, registraram-se fatos notáveis: Bernadette mostrou-se insensível a um alfinete cravado no ombro, e um de seus dedos permaneceu em contato com a chama de uma vela sem que dela resultasse qualquer queimadura.
O êxtase durou cerca de uma hora, mantendo-se inalterada mesmo ao surgir a luz da manhã. Ao término, Bernadette recuperou as cores e o semblante habitual, conservando, porém, uma paz profunda. Retirou-se com discrição, sem revelar o teor do diálogo — que todos interpretaram como uma oração secreta confiada unicamente a ela.
Naquele mesmo dia, o entusiasmo espalhou-se por Lourdes. Estrade relatou o que viu ao padre Pène e, no Café Francês, defendeu com firmeza a autenticidade do fenômeno. Entretanto, Bernadette, sobrecarregada por tantas visitas e perguntas em sua humilde morada, mostrou-se cansada e reservada, respondendo sempre com simplicidade.
Oitava aparição
Na quarta-feira, 24 de fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous voltou à gruta de Massabielle, onde já se encontravam reunidas entre duzentas e trezentas pessoas. Entre os presentes estavam Dominiquette Cazenave, a princípio cética, a preceptora Fanny Nicolau, a família Dufo e demais moradores da localidade.
Bernadette ajoelhou-se, acendeu uma vela e deu início à oração do Rosário. Ao terminar a primeira dezena, seu semblante se transformou: assumiu uma palidez luminosa, serenou-se e um sorriso lhe iluminou o rosto. Os presentes ficaram profundamente comovidos, e muitos choravam de comoção. Contudo, em dado instante, a expressão de Bernadette tornou-se grave e triste. Deslocou-se então para o interior da gruta, em direção à cavidade rochosa, e ali seu semblante voltou a resplandecer de alegria: a “Senhorita Branca” (Aqueró) fazia-se presente.
Durante o êxtase, Bernadette alternava gestos de tristeza e alegria, saudações, reverências e um diálogo que só ela podia ouvir. Seus lábios moviam-se continuamente, embora ninguém conseguisse escutar palavra. A tia Lucile, impressionada com a palidez da sobrinha, desmaiou, interrompendo brevemente a cena. Bernadette voltou-se para ela e a tranquilizou com doçura; ao término, porém, pediu-lhe que não a acompanhasse mais, para poupar-se de novos sustos.
Naquele dia, a Virgem transmitiu uma mensagem clara e firme: “Penitência! Orai a Deus pela conversão dos pecadores.” Pediu ainda que Bernadette se ajoelhasse e beijasse o chão em sinal de penitência. A menina obedeceu com humildade e profunda comoção, mostrando-se pronta a cumprir tudo quanto lhe pedisse aquela que chamava de sua “amiga celestial”.
A notícia espalhou-se velozmente por toda Lourdes. Falava-se de um segredo confiado à menina e da chamada à oração pelos pecadores. Para muitos, já não havia dúvida de que se tratava de uma ilusão: a Virgem Maria revelava ali um convite à conversão e à penitência.
Nona aparição
Na quinta-feira, 25 de fevereiro de 1858, por volta das duas horas da madrugada, os primeiros fiéis já começavam a chegar à gruta de Massabielle. Apesar da chuva e da lama, o número de pessoas cresceu até reunir cerca de trezentas pessoas: camponeses, mulheres humildes e também membros da “alta sociedade” de Lourdes, como Jean Baptiste Estrade, sua irmã Emmanuélite e a incrédula Elfrida Lacrampe.
Bernadette chegou acompanhada de suas tias. Ajoelhou se e deu início à oração do Rosário. Pouco depois, tirou a capa, entregou a vela que trazia e pôs se a caminhar de joelhos, beijando o chão em sinal de penitência. Enquanto avançava, ouviu se claramente de seus lábios a palavra repetida por três vezes: “Penitência… penitência… penitência.”
A Virgem Maria (Aqueró) pediu lhe que praticasse atos concretos: beber e lavar se numa fonte escondida sob a rocha, e comer ervas silvestres como sinal de penitência pelos pecadores. Bernadette obedeceu: cavou na lama até encontrar um pouco de água turva, que bebeu com dificuldade, e mastigou ervas que ali cresciam. O rosto, coberto de barro, causou espanto e escândalo aos presentes, que a julgaram louca ou em delírio.
Mais tarde, porém, Bernadette explicou com simplicidade: “Aqueró mandou me: vai beber à fonte e lava te. Come dessa erva que ali está. Beija o chão em penitência pelos pecadores.” Para ela, tudo era claro: a tristeza da Virgem ao falar dos pecadores impelia a a obedecer com humildade.
Naquele mesmo dia, alguns fiéis começaram a recolher água do pequeno veio que brotava no ponto onde Bernadette cavara. Embora turva, a água passou a ser vista como sinal de esperança. Outros, contudo, zombaram do ocorrido, e a imprensa local classificou o como “catalepsia” ou “loucura”.
Também as autoridades reagiram: o comissário Jacomet comunicou o fato ao prefeito e ao procurador Dutour, que entenderam ser necessário advertir e pressionar a família de Bernadette a fim de pôr fim às visitas à gruta. Naquela tarde, Bernadette foi chamada à residência do procurador imperial para ser submetida a interrogatório.
Décima aparição
No sábado, 27 de fevereiro de 1858, a décima aparição em Lourdes reuniu um número jamais visto de pessoas na gruta de Massabielle. Desde a madrugada, centenas de fiéis se aglomeraram no anfiteatro natural do local; entre eles, o diretor da Escola Superior, Antoine Clarens, que despertado pelo movimento, decidiu comparecer para observar os fatos com olhar atento e crítico.
Por volta das sete horas da manhã, Bernadette chegou e, abrindo caminho por entre a multidão, ajoelhou-se e deu início à oração do Rosário. Tal como nas ocasiões anteriores, seu semblante se iluminou com palidez e serenidade, sorrindo e saudando quem não via. Pouco depois, porém, sua expressão tornou-se grave e triste. Levantou-se, tornou a ajoelhar-se e iniciou um caminho de joelhos, beijando o chão em sinal de penitência. Subiu e desceu a encosta por diversas vezes, inclinou-se entre as plantas rasteiras e bebeu um pouco daquela água barrenta, cobrindo o rosto de barro.
Aquele sorriso, desenhado sobre o rosto manchado de lama, causou profundo espanto a muitos. Alguns ficaram impressionados com a força e a sinceridade daquele ato de penitência; outros, porém — entre eles o próprio Clarens —, interpretaram o comportamento da menina como algo estranho, que merecia até mesmo investigação médica.
Décima primeira aparição
No domingo, 28 de fevereiro de 1858, teve lugar a décima primeira aparição na gruta de Massabielle. O número de presentes foi ainda maior que no dia anterior, com cerca de mil cento e cinquenta pessoas. Bernadette Soubirous praticou os mesmos atos de penitência dos dias anteriores: caminhar de joelhos, beijar o chão e rezar segurando uma vela acesa. A multidão, já habituada, imitava lhe os gestos e acorria também em grande número para recolher água da fonte, cujo caudal crescia a cada instante.
Naquele mesmo dia, as autoridades reforçaram a vigilância. O chefe de esquadrão Renault, comandante da Gendarmaria de Tarbes, deslocou se à gruta e ordenou que, a cada manhã, fosse enviado um gendarme para informar sobre o movimento e o perfil das pessoas presentes. Mais tarde, Bernadette foi conduzida pelo guarda Latapie à residência do procurador Dutour, na casa Claverie, onde foi interrogada pelo juiz Ribes e pelo comissário Jacomet. Diante da ameaça de prisão, respondeu com serenidade: “Estou pronta a ir… mas não deixarei de ir à gruta.”
Pela tarde, o diretor da Escola Superior, Antoine Clarens, visitou Bernadette na prisão. Ainda que a princípio julgasse que seus gestos fossem sinais de “catalepsia”, ficou profundamente impressionado com a clareza e a simplicidade de suas palavras. Bernadette explicou que a Virgem Maria (Aqueró) lhe havia pedido penitência “primeiro por si mesma e depois por todos os outros”. Clarens concluiu que a menina via, de fato, algo — embora não pudesse determinar se se tratava de um milagre ou de uma alucinação — e decidiu aguardar o pronunciamento da Igreja e da ciência.
Décima terceira aparição
Na terça-feira, 2 de março de 1858, realizou-se a décima terceira aparição na gruta de Massabielle, em Lourdes, ante uma multidão ainda maior: cerca de mil seiscentas e cinquenta pessoas. A pressão da gente dificultava os atos habituais de Bernadette — caminhar de joelhos, beijar o chão e beber da fonte —, mas o mais importante é que, naquele dia, a Virgem Maria (Aqueró) lhe confiou uma mensagem especial.
Durante o êxtase, Bernadette manteve um diálogo com a Senhora. Ao término, rodeada pelas mulheres que ali passaram a noite em vigília, transmitiu o essencial: “Que vá dizer aos sacerdotes que venham em procissão…” Mais tarde, recordou também outro pedido: “Que se erija aqui uma capela.”
A mensagem provocou grande comoção. Os fiéis entenderam a procissão como um ato de homenagem e obediência, e correram a levá-la ao pároco de Lourdes, padre Peyramale. Este, embora visse com reconhecimento os frutos espirituais que se multiplicavam em sua paróquia — oração, conversões, fervor —, reagiu com severidade: rejeitou o pedido da procissão e repreendeu Bernadette e suas tias, acusando a menina de mentir e de espalhar desordem.
Bernadette, porém, manteve-se firme e serena: “Cumprei o meu dever de lhe entregar o recado.” Pouco depois, acompanhada por Dominiquette Cazenave, voltou à casa paroquial e, diante do pároco e de seus vigários, completou a mensagem com precisão: “Aqueró mandou dizer: diga aos sacerdotes que façam erigir aqui uma capela.” E acrescentou com humildade: “Mesmo que seja bem pequenina.”
Décima quarta
Na quarta-feira, 3 de março de 1858, a expectativa em Lourdes era enorme. Desde a madrugada, milhares de pessoas dirigiram-se à gruta de Massabielle. Às sete da manhã, quando Bernadette chegou com sua mãe e sua tia, havia entre três e quatro mil pessoas reunidas, ocupando inclusive a outra margem do riacho.
Nesse dia, ocorreu algo incomum: Bernadette não entrou em êxtase durante a manhã. Seu círio se quebrou, mal conseguiu ajoelhar-se e os que a observavam viram seu rosto coberto de lágrimas e transbordando tristeza, sem a luminosidade vista em outros dias. Retirou-se em silêncio, acompanhada por sua mãe, que também chorava. A notícia espalhou-se rapidamente: “Bernadette não viu nada esta manhã.” Muitos ficaram decepcionados e surgiram diversas explicações: uns diziam que a Virgem não havia aparecido por causa da multidão, outros atribuíam ao círio quebrado ou à desordem na gruta. Alguns interpretaram o fato como um castigo ou uma advertência.
Mais tarde, após descansar no moinho de Savy e acompanhada por sua tia e pelo tio Sajous, Bernadette voltou discretamente à gruta. Ali, em um ambiente mais calmo e com menos pessoas, a Virgem Maria (Aqueró) apareceu-lhe sorridente. Foi um encontro breve, mas pleno de paz, que devolveu a confiança à menina e àqueles que tiveram o privilégio de presenciá-lo.
O pároco, padre Peyramale, que estava em Tarbes, confessou a seu amigo, o cônego Ribes, que reconhecia a sinceridade em Bernadette e em sua família, embora continuasse a duvidar. Ao regressar a Lourdes, pediu um sinal: “Se Ela quer a capela, que diga seu nome e faça florescer a roseira que cresce junto à gruta.”
Décima quinta
Na quinta-feira, 4 de março de 1858, último dia da quinzena de aparições, Lourdes viveu um dia de imensa afluência na gruta de Massabielle. Desde a madrugada, entre sete e oito mil pessoas reuniram-se no local, vigiadas por gendarmes e tropas para manter a ordem. Toda a cidade se voltou para a gruta, na expectativa de um grande milagre.
Bernadette chegou com dificuldade, acompanhada por sua família e por Jean-Marie Cazenave (“Ganço”), que lhe abria caminho por entre a multidão. Ao ajoelhar-se, começou a rezar o Rosário com simplicidade. Em breve, seu rosto se iluminou com a palidez própria do êxtase e um sorriso sereno: a Virgem Maria (Aqueró) estava ali presente.
Durante cerca de três quartos de hora, Bernadette rezou, intercalando sorrisos e gestos de saudação à visão. Os presentes ficaram profundamente impressionados com a evidência de sua felicidade. O sinal da Cruz que ela fazia era imitado por todos, renovando a devoção dos corações. Debaixo da abóbada da gruta, Bernadette movia os lábios como se conversasse com a Senhora, embora ninguém conseguisse ouvir palavra. Alternava momentos de alegria e de tristeza, refletindo assim a comunhão íntima que mantinha com a Virgem. Por fim, ao terminar o Rosário, a aparição chegou ao fim e Bernadette retirou-se em silêncio.
A multidão esperava um milagre visível e espetacular, mas nada de extraordinário ocorreu além do êxtase de Bernadette. Diante disso, alguns se decepcionaram e os céticos lançaram-se ao escárnio. Os mais devotos, porém, mantiveram-se convictos de que a Virgem havia falado e de que o milagre estava prestes a se cumprir. Mais tarde, Bernadette explicou à sua prima Jeanne que se entristecia quando a Virgem estava triste e sorria quando Ela sorria.
Ao sair da gruta, Bernadette parou diante de uma menina doente, de olhos vendados e envolta em um capuz vermelho. Comovida, beijou-a duas vezes e segurou-lhe as mãos — gesto que comoveu todos os que ali estavam.
A jornada foi de grande agitação. Multidões acompanharam Bernadette até sua casa, chamada de “Calabouço”, pedindo vê-la e tocá-la. A menina, exausta, repetia: “Por que me tocam? Não tenho nenhum poder.” Ainda assim, aceitou tocar os rosários e os objetos de devoção que lhe estendiam — gesto que os fiéis interpretaram como bênção. A humilde morada dos Soubirous transformou-se em centro de peregrinação, visitada inclusive por famílias abastadas.
Décima sexta
Na quinta-feira, 25 de março de 1858, festa da Anunciação, teve lugar a décima sexta aparição na gruta de Massabielle. Após três semanas de ausência, Bernadette regressou à gruta de madrugada, impulsionada por uma alegria interior que reconheceu como um chamado da Virgem Maria (Aqueró).
Durante o êxtase, Bernadette — que havia preparado uma pergunta para conhecer a identidade da Senhora — insistiu várias vezes: “Teria a bondade de me dizer quem sois?” Por fim, a Virgem respondeu com solenidade:
“Que soy era Immaculada Councepciou”
(“Eu sou a Imaculada Conceição”)
Esse momento foi decisivo: a Virgem revelava seu nome, confirmando o dogma proclamado pela Igreja apenas quatro anos antes. Bernadette, profundamente comovida, repetiu as palavras no dialeto para não as esquecer e correu a transmiti-las ao pároco padre Peyramale, que ficou fortemente impactado. Embora inicialmente hesitasse, compreendeu que uma menina pobre e sem instrução não poderia ter inventado uma fórmula teológica tão exata.
A Virgem reiterou também o seu pedido: que se construísse uma capela junto à gruta. Bernadette, transbordante de alegria, deixou o seu círio aceso em sinal de gratidão.
Décima sétima
No dia 7 de abril de 1858, realizou-se a décima sétima aparição na gruta de Massabielle, na presença de cerca de mil pessoas. Bernadette chegou cedo, ajoelhou-se e rezou o Rosário com calma e fervor. O seu rosto resplandecia de alegria e lágrimas, alternando entre sorrisos e momentos de ternura, reflexo da comunhão íntima que mantinha com a Virgem Maria (Aqueró).
Nesse dia, ocorreu um fato extraordinário: Bernadette segurou um círio aceso entre as mãos durante aproximadamente dez minutos, e a chama, passando entre os seus dedos, não lhes causou qualquer queimadura. O médico Dr. Dozous, que se encontrava presente, observou o acontecimento e pôde verificar depois que as mãos da menina não apresentavam qualquer lesão. Comovido, declarou: “Não sei o que é que ela contempla, mas creio que vê algo.” Este episódio foi considerado por muitos como um milagre evidente.
Concluída a oração do Rosário, Bernadette aproximou-se da abóbada da gruta, movendo os lábios como em diálogo silencioso com a Senhora. Explicou mais tarde que a Virgem lhe renovara o pedido da construção de uma capela.
Os presentes ficaram profundamente impressionados com a serenidade e a graça que irradiavam de Bernadette durante o êxtase. O Dr. Dozous, até então cético, passou a ser um dos principais defensores da autenticidade das aparições. A notícia do prodígio do círio espalhou-se rapidamente por Lourdes e arredores, fortalecendo a devoção e aumentando a expectativa do povo.
Décima oitava
Em meados de julho de 1858, Bernadette já não se dirigia à gruta de Massabielle. Desde a décima sétima aparição, em 7 de abril, não recebera mais nenhuma visita da Senhora — nem mesmo no dia da sua Primeira Comunhão. Mantinha-se discreta, rezando em silêncio e alheia ao movimento popular, recusando assumir o papel de destaque que as autoridades e o povo esperavam dela.
No dia 16 de julho de 1858, solenidade de Nossa Senhora do Monte Carmelo, Bernadette sentiu novamente um chamado interior que a impeliu rumo à gruta, muito embora lhe fosse proibido aproximar-se do local. Para não ser reconhecida, saiu disfarçada com uma esclavina e um chapéu de abas largas, acompanhada pela sua tia Lucile Castérot. Em vez de descer diretamente à gruta, posicionou-se no prado de Ribère, na margem oposta do rio Gave.
Ali, ajoelhada e rezando o Rosário, viu pela última vez a Virgem Maria (Aqueró). Foi uma aparição breve, serena e silenciosa, sem nova mensagem. Bernadette declarou depois: “Nunca a havia contemplado tão bela.”
Foi este o último encontro de Bernadette com a Virgem em terras de Lourdes. A notícia quase não se espalhou, ficando conhecida apenas por uns poucos familiares e devotos próximos. O comissário Jacomet jamais chegou a tomar conhecimento do sucedido.